DA FUNDAÇÃO VITA ET PAX


                                

Canonização de Bernardo Tolomei

 

 

 

Homilia de Papa Bento XVI.

 

 

 

“Caros irmãos e irmãs,

Neste terceiro domingo do tempo pascal, a liturgia coloca mais uma vez no centro da nossa atenção o mistério de Cristo ressuscitado. Vitorioso sobre o mal e sobre a morte, o Autor da vida, que se imolou qual vítima de expiação pelos nossos pecados, “continua se oferecendo por nós e intercede como nosso advogado; sacrificado na cruz não morre mais e com os sinais da paixão vive imortal” (cfr Prefácio pascal 3). Deixemo-nos inundar interiormente pelo fulgor pascal que emana desse grande mistério, e com o Salmo responsorial rezemos: “Resplandeça sobre nós, Senhor, a luz da vossa face”.

A luz da face de Cristo ressuscitado resplandece hoje sobre nós particularmente mediante os traços evangélicos dos cinco Bem-aventurados que nesta celebração são inscritos no álbum dos Santos: Arcangelo Tadini, Bernardo Tolomei, Nuno de Santa Maria Álvares Pereira, Gertrude Comensoli e Caterina Volpicelli. Com satisfação, uno-me aos peregrinos na homenagem que rendem a eles, peregrinos aqui presentes provenientes de várias nações, aos quis com grande afeto dirijo uma cordial saudação. As diversas vicissitudes humanas e espirituais desses novos Santos mostram-nos a profunda renovação que o mistério da ressurreição de Cristo opera no coração do homem; mistério fundamental que guia e conduz toda a história da salvação. Portanto, justamente a Igreja sempre, e ainda mais nesse tempo pascal, nos convida a dirigir os nossos olhares a Cristo, realmente presente no Sacramento da Eucaristia.

Na página evangélica, São Lucas refere uma das aparições de Jesus ressuscitado (24, 35-48). Justamente no início do trecho, o evangelista observa que os dois discípulos de Emaús, tendo retornado às pressas a Jerusalém, narram aos Onze como o haviam reconhecido “no partir o pão” (v. 35). E enquanto eles estavam narrando a extraordinária experiência de seu encontro com o Senhor, Ele “em pessoa se colocou no meio deles” (v. 36). Por causa dessa inesperada aparição os Apóstolos ficaram atemorizados e assustados, a ponto de Jesus, para assegurá-los e vencer todo titubeio e dúvida, pedir a eles para tocá-lo – não era um fantasma, mas um homem de carne e osso – e depois pedir algo para comer. Mais uma vez, como se deu para os dois em Emaús, é à mesa, enquanto come com os seus, que o Cristo ressuscitado se manifesta aos discípulos, ajudando-os a compreender as Escrituras e a reler os eventos da salvação à luz da Páscoa. “É preciso que se apareçam – ele diz – todas as coisas escritas sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (v. 44). E os convida a olhar para o futuro: “em seu nome, a conversão e o perdão dos pecados serão pregados a todos os povos” (v. 47).

Esta mesma experiência, toda comunidade a revive na celebração eucarística, especialmente dominical. A Eucaristia, o lugar privilegiado no qual a Igreja reconhece “o autor da vida” (cfr At 3, 15), é “a fração do pão”, como é chamado nos Atos dos Apóstolos. Nela, mediante a fé, entramos em comunhão com Cristo, que é “altar, vítima e sacerdote” (cfr Prefácio pascal 5). Reunimo-nos em torno a Ele para fazer memória de suas palavras e dos eventos contidos na Escritura; revivemos a sua paixão, morte e ressurreição. Celebrando a Eucaristia comunicamos com Cristo, vítima de expiação, e d’Ele adquirimos perdão e vida. O que seria a nossa vida de cristãos sem a Eucaristia? A Eucaristia é a perpétua e viva herança a nós deixada pelo Senhor no Sacramento de seu Corpo e de seu Sangue, que devemos constantemente repensar e aprofundar para que, como afirmava o venerado Papa Paulo VI, possa “imprimir a sua inexorável eficácia em todos os dias da nossa vida mortal” (Ensinamentos, V (1967), p. 779). Alimentados pelo Pão eucarístico, os santos que hoje veneramos portaram a cumprimento a sua missão de amor evangélico nos diversos campos em que atuaram com os seus peculiares carismas.

Santo Arcangelo Tadini transcorria longas horas em oração diante da Eucaristia. Ele, tendo sempre em vista em seu ministério pastoral a pessoa humana na sua totalidade, ajudava os seus paroquianos a crescer humana e espiritualmente. Esse santo sacerdote, homem totalmente de Deus, pronto em todas as circunstâncias a deixar-se guiar pelo Espírito Santo, era, ao mesmo tempo, disponível a acolher as urgências do momento e a encontrar remédio para elas. Por isso mesmo, assumiu muitas iniciativas concretas e corajosas, como a organização da “Sociedade Operária Católica de Mútuo Socorro”, a construção da estrutura de tecelagem e do colégio interno para as operárias e a fundação, em 1900, da “Congregação das Irmãs Operárias da Santa Casa de Nazaré”, com a finalidade de evangelizar o mundo do trabalho mediante a partilha da fadiga, a exemplo da Santa Família de Nazaré. Quão profética foi a intuição carismática de Pe. Tadini e quão atual permanece sendo o seu exemplo também hoje, numa época de grave crise econômica! Ele nos recorda que somente cultivando uma constante e profunda relação com o Senhor, especialmente no Sacramento da Eucaristia, podemos depois ser capaz de portar o fermento do Evangelho nas várias atividades de trabalho e em todos os âmbitos da nossa sociedade.

Também em São Bernardo Tolomei, iniciador de um singular movimento monástico beneditino, sobressai-se o amor pela oração e pelo trabalho manual. A sua existência foi uma existência eucarística, toda dedicada à contemplação, que se traduzia em humilde serviço ao próximo. Pelo seu singular espírito de humildade e de acolhimento fraterno, foi reeleito abade pelos monges durante vinte e seis anos consecutivos, até a morte. Ademais, para assegurar o futuro de sua obra, ele obteve de Clemente VI, no dia 21 de janeiro de 1344, a aprovação pontifícia da nova Congregação beneditina, chamada de “Santa Maria do Monte Oliveto”. Por ocasião da grande epidemia de 1348, deixou a solidão do Monte Oliveto para ir ao mosteiro de São Bento em Porta Tufo, em Sena, para assistir os seus monges atingidos pela pestilência, e ele mesmo morreu vítima da enfermidade como autêntico mártir da caridade. Do exemplo desse Santo vem a nós o convite a traduzir a nossa fé numa vida dedicada a Deus na oração e vivida a serviço do próximo sob o impulso de uma caridade pronta também ao sacrifício supremo.

«Sabei que o Senhor me fez maravilhas. Ele me ouve, quando eu o chamo» (Sal 4,4). Estas palavras do Salmo Responsorial exprimem o segredo da vida do bem-aventurado Nuno de Santa Maria, herói e santo de Portugal. Os setenta anos da sua vida situam-se na segunda metade do século XIV [catorze] e primeira do século XV [quinze], que viram aquela nação consolidar a sua independência de Castela e estender-se depois pelos Oceanos – não sem um desígnio particular de Deus –, abrindo novas rotas que haviam de propiciar a chegada do Evangelho de Cristo até aos confins da terra. São Nuno sente-se instrumento deste desígnio superior e alistado na militia Christi, ou seja, no serviço de testemunho que cada cristão é chamado a dar no mundo. Características dele são uma intensa vida de oração e absoluta confiança no auxílio divino. Embora fosse um ótimo militar e um grande chefe, nunca deixou os dotes pessoais sobreporem-se à acção suprema que vem de Deus. São Nuno esforçava-se por não pôr obstáculos à ação de Deus na sua vida, imitando Nossa Senhora, de Quem era devotíssimo e a Quem atribuía publicamente as suas vitórias. No ocaso da sua vida, retirou-se para o convento do Carmo por ele mandado construir. Sinto-me feliz por apontar à Igreja inteira esta figura exemplar nomeadamente pela presença duma vida de fé e oração em contextos aparentemente pouco favoráveis à mesma, sendo a prova de que em qualquer situação, mesmo de carácter militar e bélica, é possível atuar e realizar os valores e princípios da vida cristã, sobretudo se esta é colocada ao serviço do bem comum e da glória de Deus.

Santa Gertrude Comensoli percebeu, desde criança, uma atração particular por Jesus na Eucaristia. A adoração do Cristo eucarístico tornou-se a finalidade principal de sua vida, poderíamos quase dizer, a condição habitual da sua existência. Foi, de fato, diante da Eucaristia que santa Gertrude compreendeu a sua vocação e missão na Igreja: a de dedicar-se sem reservas à ação apostólica e missionária, especialmente em favor da juventude. Nasceu assim, em obediência ao Papa Leão XIII, o seu Instituto que buscava traduzir a “caridade contemplada” no Cristo eucarístico, em “caridade vivida” no dedicar-se ao próximo necessitado. Numa sociedade desorientada e muitas vezes ferida, como é a nossa, a uma juventude, como a juventude dos nossos tempos, em busca de valores e de um sentido a dar à própria existência, santa Gertrude indica como ponto firme de referência o Deus que na Eucaristia se fez nosso companheiro de viagem. Recorda-nos que “a adoração deve prevalecer sobre todas as obras de caridade” porque é do amor por Cristo morto e ressuscitado, realmente presente no Sacramento eucarístico, que brota aquela caridade evangélica que nos impele a considerar irmãos todos os homens.

Também santa Caterina Volpicelli foi testemunha do amor divino. Ela esforçou-se para “ser de Cristo, para levar a Cristo” todos aqueles que encontrou na cidade de Nápoles do final do Séc. XIX, num tempo de crise espiritual e social. Também para ela o segredo foi a Eucaristia. Recomendava a suas primeiras colaboradoras que cultivassem uma intensa vida espiritual na oração e, sobretudo, o contato vital com Jesus eucarístico. Também hoje essa é a condição para prosseguir a obra e a missão por ela iniciadas e deixada em herança para as “Servas do Sagrado Coração”. Para ser autênticas educadoras da fé, desejosas de transmitir os valores da cultura cristã às novas gerações, é indispensável, como amava repetir, libertar Deus das prisões em que os homens O confinaram. De fato, somente no Coração de Cristo a humanidade pode encontrar a sua “estável moradia”. Santa Caterina mostra às suas filhas espirituais e a todos nós, o caminho exigente de uma conversão que muda na raiz o coração, e se traduza em ações coerentes com o Evangelho. É possível assim colocar as bases para construir uma sociedade aberta à justiça e à solidariedade, superando aquele desequilíbrio econômico e cultural que continua subsistindo em grande parte do nosso planeta.

Caros irmãos e irmãs, demos graças ao Senhor pelo dom da santidade, que hoje resplandece na Igreja com singular beleza em Arcangelo Tadini, Bernardo Tolomei, Nuno de Santa Maria Álvares pereira, Gertrude Comensoli e Caterina Volpicelli. Deixemo-nos atrair pelos exemplos deles, deixemo-nos conduzir por seus ensinamentos, para que também a nossa existência se torne um cântico de louvor a Deus, nas pegadas de Jesus, adorado com fé no mistério eucarístico e servido com generosidade no nosso próximo. Que a materna intercessão de Maria, Rainha dos Santos, e desses novos cinco luminosos exemplos de santidade – que hoje veneramos com alegria – nos permita realizar essa missão evangélica. Amem!”

Fonte: Vaticano



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