DA FUNDAÇÃO VITA ET PAX


                                             

Prefácio de São Gregório Magno aos quatro livros dos diálogos

 

“Abatido, um dia, por causa da excessiva afluência de alguns

seculares - aos quais, em suas dificuldades, somos muitas vezes

obrigados a pagar até o que sem dúvida não devemos -, procurei um

lugar retirado, amigo de minhas mágoas, onde pudesse ver com

clareza tudo que me desagradava em minhas ocupações e ter

livremente sob os olhos tudo quanto me costumava afligir. Enquanto

ali me achava, amargurado e em silêncio por muito tempo, esteve

comigo meu amado filho, o diácono Pedro, que desde a mais tenra

idade me é familiarmente ligado por grande amizade, e também

companheiro no estudo da Palavra Sagrada. Vendo-me o coração

devorado de mágoa, disse-me:

“Terá acontecido algo de novo, pois estás mais triste que de

costume?”

“Pedro, respondi-lhe, a tristeza que sofro cada dia, é para mim

sempre velha, porque contínua, e, simultaneamente, sempre nova,

porque sempre aumenta. Meu pobre espírito, atacado do mal das

suas ocupações, recorda o que foi outrora no mosteiro, como as

coisas instáveis lhe estavam por baixo, e quanto ele transcendia

tudo que passa, acostumado que era a não pensar senão nas coisas

celestes; recorda que, embora retido no corpo, já ultrapassava pela

contemplação os limites da carne; e a morte, que para quase todos é

punição, ele já a desejava como a entrada na vida e o prêmio dos

seus trabalhos. Agora, porém, sofre com as dificuldades dos

seculares, por ocasião da cura pastoral. Depois de tanta formosura

do tempo da sua paz, está hoje enfeiado do pó da atividade terrena.

E como, por condescendência com muitos, ele se dissipa pelas

coisas de fora, mesmo quando retoma o curso da vida interior, é,

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.1.

sem dúvida, debilitado que a ela volta. Estou, pois, avaliando o que

sofro, avaliando o que perdi; e, enquanto considero o que perdi,

pesa-me ainda mais o que suporto.

Eis, com efeito, sou agora batido pelas vagas de alto mar, e os

ventos de forte tempestade despedaçam a nau de minha mente;

quando me lembro da vida anterior, suspiro como se estivesse

vendo atrás de mim o litoral. E, o que é ainda mais triste, enquanto

sou levado no tumulto de imensas ondas, mal posso ver o porto que

deixei; pois esta é a lei das quedas do espírito: primeiro, ele perde o

bem que possui, mas ao menos se lembra de o ter perdido; depois,

quando avança mais longe, acaba esquecendo o próprio bem que

perdeu, e, finalmente, não vê mais, nem de memória, o que antes

possuía por experiência. Daí se segue o que antes eu disse: se

navegarmos mais adiante, já nem o porto de tranqüilidade que

deixamos, podemos ver.

Às vezes, também, para aumento de minha dor, volta-me à

lembrança a vida de alguns homens que de toda a mente deixaram

este século. Vendo as alturas a que chegaram, fico sabendo quanto

me encontro por baixo. A maioria deles agradou ao Criador numa

vida retirada; para que o seu espírito novo não envelhecesse por

ocupações humanas, Deus onipotente não quis que se ocupassem

com trabalho deste mundo.”

Mas poderei relatar melhor o diálogo (travado entre mim e Pedro), se

distinguir perguntas e respostas pela indicação dos nomes dos

interlocutores.

Pedro: “Não sabia que na Itália alguns homens brilharam

notavelmente pelas virtudes de sua vida. Ignoro, pois, quem são

estes cuja comparação te inflama. Não duvido, é verdade de que

houve neste país homens bons, mas penso que ou não operaram

absolutamente sinais e milagres, ou, se os operaram, foram até hoje

de tal modo pas- sados em silêncio que não sabemos que os

praticaram.”

Gregório: “Pedro, se eu referir o que desses homens perfeitos e

aprovados eu só, pobre homenzinho, vim a saber do testemunho de

gente boa e fidedigna, ou aprendi por mim mesmo, penso que o dia

acabará antes da narrativa.”

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.1.

Pedro: “Gostaria de que em resposta a perguntas minhas contasses

alguma coisa desses homens. Não deve parecer condenável

interromper com isto a exposição da Escritura, porque não menos

edificação provém da lembrança dos milagres. Na exposição da

Escritura conhece-se o modo de encontrar e conservar a virtude; na

narração dos milagres, conhecemos como se manifesta a virtude

encontrada e conservada. E há muita gente que mais pelo exemplo

do que pela palavra se inflama de amor pela pátria celeste. Muitas

vezes mesmo os exemplos dos Pais trazem à alma do ouvinte uma

dupla ajuda, pois, se, de um lado, ele se afervora no amor da vida

futura pela comparação com os que o precederam, de outro lado,

também se humilha, se julga ser alguma coisa, ao conhecer que

outros foram melhores.”

Gregório: “O que fiquei sabendo pela narração ouvida de homens

veneráveis, também eu o narrarei sem hesitação, seguindo um

exemplo de santa autoridade; pois me é mais claro do que a luz que

Marcos e Lucas aprenderam, não por ver, mas por ouvir, o

Evangelho que escreveram. Todavia, para tirar aos leitores qualquer

ocasião de dúvida, referirei em cada caso que descrever, os autores

por quem fui informado. Quero, porém, chamar a tua atenção para o

seguinte: em alguns casos guardarei apenas o sentido, enquanto,

em outros, tanto o sentido como as palavras dos relatores. A razão é

que, se de todas as pessoas eu quisesse conservar textualmente as

palavras, a linguagem de escritor não poderia reproduzir dignamente

as que foram proferidas em linguagem rústica.

Foi de anciãos muito veneráveis que ouvi o que passo a contar.”

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.2.

 

PRÓLOGO DE S. GREGÓRIO MAGNO AO SEGUNDO LIVRO

DOS DIÁLOGOS

“Houve um varão de vida venerável, Bento tanto pela graça quanto

pelo nome, que desde a infância possuía um coração maduro.

Superior, pelo seu modo de proceder, ao verdor da idade a nenhuma

volúpia entregou seu coração, e assim, enquanto se achava nesta

terra, da qual por algum tempo pudera gozar livremente, desprezou,

como já murchas, as flores do mundo.

Oriundo de nobre estirpe da província de Núrsia, fora encaminhado

a Roma para o estudo das belas letras. Vendo, porém, muitos

nesses estudos rolarem pelo despenhadeiro do vício, recolheu logo

o pé que quase pusera no limiar do mundo, no temor de que,

tocando algo da sua ciência, viesse também ele a despenhar-se por

inteiro no tremendo abismo.

Desprezando, pois, tais estudos, deixou a casa e os bens paternos,

e, no desejo de agradar somente a Deus, procurou o santo hábito do

monaquismo. Retrocedeu, assim, doutamente ignorante e

sabiamente insensato.

Não conheço todos os feitos desse varão, mas o pouco que

contarei, sei-o pela narração de quatro discípulos seus: Constantino,

homem respeitabilíssimo, que lhe sucedeu na direção do mosteiro;

Valentiniano, que regeu por muitos anos o mosteiro do Latrão;

Simplício, que foi o seu segundo sucessor na direção da

comunidade; Honorato, que até hoje dirige o mosteiro onde Bento

antes viveu.”

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.3.

CAPÍTULO I. REPARAÇÃO DO CRIVO QUEBRADO.

“Deixando, pois, as humanidades, resolveu procurar um lugar ermo,

seguido apenas pela aia, que o amava com ternura. Chegaram,

assim, a certa localidade chamada Enfide, onde, entretidos pela

caridade de muitos homens de virtude, ficaram morando junto à

igreja de S. Pedro Apóstolo. Um dia, a ama pediu às vizinhas que lhe

emprestassem um crivo para limpar o trigo; tendo-o, porém, deixado

descuidadamente sobre a mesa, o crivo caiu e se quebrou, ficando

partido em dois pedaços. Logo que voltou e o encontrou nesse

estado, a mulher começou a chorar muito, aflita por ver quebrada a

vasilha que tomara de empréstimo. Quando, porém, o piedoso e

bondoso jovem Bento encontrou a ,ama chorando, compadecido da

sua dor, pegou os dois cacos do vaso, e, levando-os consigo,

entregou-se à oração com lágrimas. Quando se ergueu da oração,

viu junto de si o crivo de tal forma íntegro que nenhum vestígio se

podia descobrir da fratura. Então, pronta e carinhosamente consolou

a ama, devolvendo-lhe são o vaso que levara em cacos.

Este fato passou ao conhecimento de todos os habitantes do lugar,

e foi tido em tanta admiração que penduraram à porta da igreja o

crivo restaurado, a fim de que os contemporâneos e os pósteros

todos ficassem sabendo em que grau de perfeição o jovem Bento

principiara a graça da vida monástica. A vasilha ficou por muitos

anos exposta aos olhares de todos, pendendo à parta da igreja até

estes tempos dos Lombardos.

Bento, porém, mais apetecendo os maus tratos que os louvores do

mundo, e preferindo fatigar-se de trabalhos por Deus a ser alçado

pelos favores desta vida, fugiu ocultamente da ama e foi dar a um

retiro deserto no lugar denominado , distante de Roma cerca de

quarenta milhas. Aí brota uma água fresca e transparente, que,

correndo com abundância, primeiro forma um grande lago, do qual

deriva, afinal, um rio.

Quando para ali se encaminhava em fuga, encontrou certo monge de

nome Romano, que lhe perguntou aonde ia. Ciente do seu desejo,

não só guardou segredo mas ainda lhe prestou ajuda e deu o hábito

do monacato, servindo-o no que podia.

Chegado a tal lugar, o homem de Deus recolheu-se à apertadíssima

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.3.

gruta, onde morou três anos ignorado de todos, excetuado o monge

Romano. Este último vivia num mosteiro próximo, sob a regra do

abade, a cujo olhar piedosamente furtava algumas horas para levar a

Bento, em determinados dias, a parte de pão que conseguira

subtrair ao próprio consumo. Não havia caminho do mosteiro de

Romano à gruta, por causa de alto rochedo que em cima da gruta

fazia saliência ; mas Romano, do alto dessa pedra, costumava fazer

descer o pão pendurado a uma corda comprida a que prendera uma

campainha para que o homem de Deus, ao ouvir-lhe o toque,

soubesse que era a hora de baixar o alimento, e saísse a tomá-lo.

Um dia, porém, o antigo inimigo, invejando a caridade de um e a

refeição do outro, quando viu descer o pão, jogou uma pedra e

quebrou a campainha. Romano, não obstante, não desistiu de

prestar por meios aptos o seu serviço.

No entanto, Deus todo-poderoso queria, de um lado, descansar

Romano do trabalho, e, doutro lado, exibir aos homens, para

exemplo, a vida de Bento, a fim de que brilhasse como lâmpada

sobre o candelabro, iluminando todos os que estão na casa. Por

isto, o Senhor dignou-se de aparecer a certo presbítero que morava

longe e acabava de preparar, no dia de Páscoa, a própria refeição;

disse-lhe: “Preparas delícias para o teu próprio gozo, enquanto o

meu servo em tal lugar é atormentado pela fome'.” O sacerdote

levantou-se imediatamente e no próprio dia da solenidade de

Páscoa, com os alimentos que para si preparara, saiu na direção

indicada, procurando o homem de Deus através dos montes

escarpados, pelos vales e fossas do terreno, até que o achou

escondido na gruta. Depois de rezarem, assentaram-se bendizendo a

Deus todo-poderoso; após suaves colóquios sobre a vida eterna, o

recém-vindo disse estas palavras: “Eia, tomemos alimento, porque

hoje é Páscoa. Respondeu-lhe o homem de Deus: “Sei que é Páscoa,

pois mereci a graça de te ver”. Morando longe dos homens, Bento

ignorava que a solenidade pascal era naquele dia; más o venerável

presbítero de novo lho asseverou: “Em verdade hoje é Páscoa, o dia

da Ressurreição do Senhor. De modo nenhum te fica bem jejuar,

pois aqui fui mandado justamente para que juntos partilhemos as

dádivas de Deus todo-poderoso” . Louvando, pois, o Senhor,

tomaram alimento; e, finda a refeição e o colóquio, voltou o padre

para a sua igreja.

Por esse mesmo tempo também alguns pastores o encontraram

escondido na caverna. Vendo-o entre arbustos, vestido de peles,

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.3.

julgaram a principio que fosse um animal selvagem; mas, quando

ficaram conhecendo o servo de Deus, muitos se converteram da sua

mente animal para a graça de uma vida piedosa. Assim o nome de

Bento tornou-se conhecido pelos arredores; já desde então Bento

começou a ser visitado por muitos que, trazendo-lhe a refeição para

o corpo, levavam, em troca, nos corações, o alimento de vida que

procedia dos lábios do santo.

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.4.

CAPÍTULO II. VITÓRIA SOBRE A TENTAÇÃO DA CARNE.

Certa vez, quando estava só, apareceu-lhe o tentador: uma dessas

avezinhas pretas, conhecidas vulgarmente pelo nome de melro,

começou a esvoaçar em torno do seu rosto e a chegar

importunamente tão perto que o santo homem, se o quisesse, a

poderia apanhar com a mão. Em vez disto, fez o sinal da cruz, e o

pássaro afastou-se. Desaparecida, porém, a ave, seguiu-se-lhe

grande tentação carnal, qual nunca o santo experimentara.

Conhecera outrora certa mulher, que o espírito maligno lhe fazia por

essa ocasião voltar aos olhos do espírito, inflamando de tal modo o

coração do servo de Deus a lembrança de sua formosura, que seu

peito mal podia conter as chamas do amor, e que quase pensava em

abandonar o deserto, vencido pela paixão. Mas eis que de repente

foi contemplado pela graça celeste, e voltou a si; vendo, então, ao

lado de si crescerem densas moitas de urtigas e espinhos, atirou-se,

despido, a essas pontas e a essas chamas, onde se revolveu por

tanto tempo, que, ao sair, estava ferido por todo o corpo. Assim

expulsou do corpo, pelas feridas da carne, a chaga do espírito:

convertera em dor a volúpia. Ardendo por fora em justa punição,

apagou o que por dentro ilicitamente queimava. Venceu, pois, o

pecado, porque transformou a natureza do incêndio. E a partir dessa

época, como ele mesmo dizia aos discípulos, foi nele a tal ponto

subjugada a tentação da volúpia que nunca mais a sentiu. Muitos,

então, começaram a deixar o mundo e a acorrer ao seu magistério:

livre que estava do mal da tentação, mereceu tornar-se mestre de

virtudes. Por isso é que Moisés determina que os Levitas sirvam a

partir dos vinte e cinco anos, e que, depois dos cinqüenta, se tornem

guardas dos vasos sagrados (Num 8,24-26).”

Pedro: “Entendo em parte o sentido do testemunho (bíblico) que

aduzes, mas peço que o expliques mais plenamente.”

Gregório: “É evidente, Pedro, que na juventude ferve a tentação da

carne, mas, depois dos cinqüenta anos, arrefece o calor do corpo;

quanto aos vasos sagrados, são as mentes dos fiéis. É preciso, pois,

que, enquanto estão sujeitos à tentação, os eleitos sejam submissos

e sirvam, fatigando-se em obediência e trabalhos. Quando, porém,

na idade tranqüila da mente, tenha passado o calor da tentação,

tornam-se guardas dos vasos, isto é, doutores das almas.”

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.4.

Pedro: “Confesso que a explicação me satisfaz. E, agora que já

desvendaste o sentido da passagem trazida em testemunho, peço-te

que continues a descrever o que foi começado da vida desse justo.”

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.5.

CAPÍTULO III. O COPO DE VIDRO QUEBRADO COM O SINAL

DA CRUZ.

Gregório: “Vencida a tentação, o homem de Deus, como terra bem

cultivada e expurgada de espinhos, produziu com maior abundância

o fruto da seara das virtudes. E, com a divulgação da fama de sua

exímia vida monacal, ia-lhe o nome ficando célebre.

Ora, havia a não grande distância um mosteiro cujo abade falecera.

Toda a comunidade foi ter então com o venerável Bento, e

instantemente pediu-lhe quisesse ficar à sua frente. O santo recusou

por muito tempo, predizendo que não poderia harmonizar os seus

costumes com os daqueles irmãos. Mas, afinal, vencido pelos rogos,

cedeu.

Já porém, que vigiava naquele mosteiro pela observância da vida

regular e a ninguém permitia que por ações ilícitas se desviasse,

como antes, do caminho monástico, os irmãos que ele aceitara,

encheram-se de fúria e puseram-se primeiro a acusar a si mesmos

por terem pedido a Bento que os regesse; sua vida tortuosa ia em

oposição à reta norma do abade.

Como viam que, sob tal abade, o ilícito já não lhes era permitido, e

como lhes doía abandonar os antigos hábitos, achando eles dura a

obrigação de meditar coisas novas na sua mente velha, alguns deles

- já que aos maus é sempre pesada a vida dos bons - tramaram a

morte do abade, e, tomado o alvitre em conselho, deitaram-lhe

veneno ao vinho. Quando apresentaram ao Pai, sentado à mesa, o

copo da bebida pestífera para ser abençoado segundo o costume da

casa, Bento estendeu a mão e fez o sinal da cruz. A este gesto, o

vaso, que estava distante, estalou e fez-se em pedaços, como se

naquela taça de morte tivesse dado, em vez da cruz, uma pedrada.

Compreendeu logo o homem de Deus que o copo contivera uma

bebida mortal, pois não pudera suportar o sinal da vida. Levantou-se

no mesmo instante, e, com o rosto plácido, a mente tranqüila,

convocou os irmãos, aos quais assim falou: “Deus tenha compaixão

de vós, irmãos. Porque me quisestes fazer isto? Não vos disse eu

previamente que não se harmonizariam os vossos e os meus

costumes? Ide, e procurai para vós um Pai consoante à vossa vida;

depois disto já não me podereis reter”.

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.5.

Voltou, então, ao recanto da dileta solidão, e só, sob os olhares do

Contemplador Superno, pôs-se a viver consigo mesmo.”

Pedro: “Não entendo bem o que significa isto: «viver consigo

mesmo”.

Gregório: “Se o santo varão pretendesse ter por muito tempo sob

seu poder e coação irmãos que conspiravam unanimemente contra

ele e eram de vida tão diferente da sua, talvez excedesse o limite das

próprias forças, perdesse a tranqüilidade, e. assim, baixasse da luz

da contemplação, os olhos da mente. Cansando-se em lidar cada dia

com a incorreção de outros, cuidaria menos de si próprio, e, desta

forma, talvez viesse a perder-se a si, sem achar os outros. Pois,

quando somos arrastados muito fora de nós pela agitação do

pensamento, continuamos a ser nós mesmos, mas não estamos em

nós mesmos, porque deixamos de olhar para dentro de nós e

vagamos pelas outras coisas. Acaso diremos que vivia consigo

aquele que partiu para longe, consumiu o quinhão recebido e se

empregou na casa de um habitante do lugar, deu de comer a porcos,

que via fartarem-se de favas, enquanto ele mesmo tinha fome?

Depois, porém, começou a pensar nos bens que perdera, e então foi

escrito dele: “Voltando a si, disse: Quantos mercenários têm pão em

abundância na casa de meu pai!” (Lc 15,17). Ora, se estava em si

mesmo, como é que voltou a si?

Disse eu, pois, que esse venerável homem viveu só consigo, porque,

sempre prudente na guarda de si mesmo, vendo-se continuamente

ante os olhos do Criador e examinando-se sem cessar, nunca deixou

que lhe divagasse fora o olhar da mente”. Pedro: “Como entender o

que está escrito do Apóstolo Pedro, quando foi tirado do cárcere

pelo anjo? Ele, “voltando a si, disse: Agora sei, na verdade, que o

Senhor enviou o seu anjo e me livrou do poder de Herodes e de toda

a expectativa do povo dos Judeus” (Atos 12,11).

Gregório: “De dois modos, Pedro, somos levados para fora de nós:

ou caímos abaixo de nós mesmos pela queda do pensamento, ou

somos transportados acima, pela grafa da contemplação.

Aquele, pois, que guardou porcos, caiu, por pensamentos

divagantes e imundos, abaixo de si, enquanto aquele que o anjo

libertou e arrebatou no êxtase do espírito, esteve também fora, mas

acima, de si. Cada um deles, portanto, “ voltou a si”: um, deixando

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.5.

as obras erradas, recolheu-se a própria alma; o outro, descendo das

alturas da contemplação, voltou ao modo comum de inteligência,

como dantes. Por conseguinte, o venerável Bento, naquela solidão,

viveu só consigo, enquanto se manteve dentro da clausura do

pensamento; pois todas às vezes que o ardor da contemplação o

raptou para as alturas, ele se deixou, sem dúvida, abaixo de si

mesmo”.

Pedro: “Apraz-me o que dizes; mas queria saber se ele podia deixar

os irmãos que tinha tomado a si para sempre.”

Gregório: “Em minha opinião, Pedro, julgo que onde existem alguns

bons que possam ser ajudados, devem os maus ser suportados com

paciência. Mas onde falta, por completo, o fruto dos bons, torna-se,

finalmente, inútil o trabalho gasto com os maus, mormente se perto

há outras condições capazes de produzir fruto para Deus.

Por causa de quem ficaria ó santo homem ali, pendo todos em peso

contra si? Muitas vezes, também, no espírito dos perfeitos se dá

uma coisa que não devemos passar em silêncio: vendo sem

resultado o seu esforço, passam a outro lugar, onde trabalhem com

fruto. Por este motivo, aquele grande pregador, que ardia por “

dissolver-se” e “para quem Cristo constituía o viver, e a morte,

lucro” (Fil 1,21-23) que não só apeteceu os sofrimentos para si, mas

ainda inflamou os outros para tolerá-los, esse grande pregador,

quando foi alvo de perseguição em Damasco, procurou, para evadirse,

a muralha, cordas e um cesto, e quis ser baixado às ocultas (2

Cor 11,32-33). Diremos, por ventura, que Paulo temeu a morte, que

ele próprio afirma ter cobiçado por amor de Jesus?

A verdade é que, vendo esperá-lo ali menos fruto e maior trabalho,

se reservou para trabalhar em outra parte com maior proveito; pois o

robusto combatente de Deus não quis ficar encerrado no

acampamento, mas buscou o campo de batalha. Donde também em

breve verás, se prestares atenção, que o mesmo venerável Bento

não deixou de lado tantos rebeldes quantos ressuscitou, alhures, da

morte da alma.”

Pedro: “É como dizes; mostra-o tanto a razão evidente como o

adequado testemunho da Escritura. Peço-te agora que voltes à

narração da vida de tão grande Pai.”

S. Gregório Magno SEGUNDO LIVRO DOS DIÁLOGOS: VIDA DE SÃO BE: C.5.

Gregório: “Como o santo homem, vivendo muito tempo naquela

solidão, crescesse em virtude e milagres, foi reunindo muitos no

lugar para o serviço de Deus todo-poderoso. Pôde, assim, construir,

com a ajuda de Jesus Cristo Senhor onipotente, doze mosteiros, em

cada um dos quais colocou doze monges sob um abade instituído;

consigo, porém, conservou alguns poucos, que julgou conveniente

se formassem ulteriormente em sua presença.

Por esse tempo, também, começaram a afluir de Roma pessoas

nobres e piedosas, que lhe davam os filhos a fim de que os criasse

para Deus todo-poderoso. Foi então que Equício fez a entrega de

Mauro, e o nobre Tertulo, a de Plácido, flores das esperanças

paternas. Mauro, adolescente que se distinguia pelos bons

costumes, começou a prestar auxílio ao Mestre, enquanto Plácido

ainda se achava em idade infantil.”

 



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